CAPÍTULO 29 – ELA
A noite passava, como um raio que Zeus lança do Olimpo à terra e como esse mesmo raio a minha noite trouxe um efeito estrondoso em minha vida, novas experiências, sensações, gostos, aromas e visões, mas nada disso se aproxima do que estar por vir, aliás daquela que estar por vir.
Já estávamos de saída, Juan já havia pago nossas bebidas, outros dos nossos amigos já tinham ido, outros estavam completamente ébrios, alguns conquistando algumas moças que ali ainda estavam e outros, outros já haviam conquistado suas respectivas ninfas. Não costumo contar minhas experiências, principalmente amorosas, digo que naquela noite aconteceram comigo algumas dessas situações em que os deuses do amor tocam nosso corpo e fazem com que percamos a noção do tempo e do espaço, mas nada se compara - insisto em dizer – ao que meus olhos castanhos estariam por ver nos próximos instantes. Levantei-me da mesa suavemente, passei as duas mãos sobre minha face, fechei os olhos – como se agradecendo por ter vivido aquele dia – deslizei minhas mãos em direção aos cabelos, inclinei meu pescoço um pouco para trás, respirei fundo, após alguns segundos abri os olhos e justamente nesse instante a vi. Não sabia quem era, mas ela estava naquele momento em minha frente. Por favor, leitor, não peça para que eu a descreva, será em vão! Você me questiona o porquê, eu respondo com a maior simplicidade possível: é inútil tentar descrever aquilo que as palavras nunca vão conseguir mensurar, a beleza estava ali em forma de mulher, nada mais. Seus traços, seus cabelos, seus olhos e seu jeito de se mover, tudo fazia parte de um conjunto inigualável, nada poderia ser alterado nem questionado. Simplesmente era ela.
Então, fiquei petrificado, não sabia como agir – fiquei alguns instantes imaginando se aquela não era uma miragem ou imaginação de uma mente que já sentia os efeitos de tantas e tantas taças de vinho, mas nem mesmo a mente mais fértil seria capaz de imaginar alguém tão perfeita. Ela se aproximou, com passos lentos, porém firmes, graciosos, porém decididos, aproximou-se, cada vez mais e mais. Meu coração batia, batia forte, sentia-me deveras vivo naquele instante, ao ponto de me perguntar se aquele turbilhão de sensações era normal. Seu perfume a cada passo entorpecia mais e mais meus sentidos, seus olhos me hipnotizaram de uma forma surreal, inexplicável. Aquilo tudo tinha uma única explicação a meu ver: estava apaixonado por uma desconhecida.
Enfim ela estava ao meu alcance, em segundos pensei no que dizer naquele instante, pensei como um poeta, como um homem, como um amante, como um conquistador, mas no final meus pensamentos eram de um garoto apaixonado. Antes mesmo que dissesse a primeira palavra ela tomou a iniciativa, e disse:
- Abel é o seu nome não?
Seria um bom sinal ela ter iniciado uma conversa? Tudo passava em meus pensamentos, mas nada que realmente me ajudasse!
- Sim, é o meu primeiro dia aqui. E você como se chama?
- Deixemos meu nome para depois. Gostei do seu poema, aliás, é realmente seu?
- Sim, sempre escrevi...
- ... Você escreveria um para mim?
Fiquei intrigado pela forma como ela me abordava, com palavras imperativas, um certo tom de arrogância, mas tudo era contrastado com seu jeito meigo e carinhoso de se expressar, não preciso comentar que estava cada vez mais confuso.
- Posso sim, mas eu nem conheço você ao certo!
- Claro que conhece, está falando comigo neste instante. E ambos estudamos aqui e como você disse é só o seu primeiro dia, ainda nos veremos.
Ao terminar sua frase, sempre doce com um sorriso no rosto ela se despediu de mim com dois beijos no rosto, um em cada face e ao sair ainda disse:
- Até segunda Juan, nos vemos na aula!
Para meu espanto ela conhecia o Juan, isso seria uma ótima notícia para quem estava apaixonado como eu – pensei. Após aquele rápido momento, não mais que dois minutos, conclui que minha noite foi perfeita, tudo o que não tinha vivido em toda minha vida havia se concretizado em uma única, mas perfeita noite. Enfim, nos levantamos e andamos em direção aos nossos alojamentos, saímos cantando e dando várias gargalhadas, repercutindo tudo que havia acontecido naquelas horas mágicas. Falamos da boa música, dos bons vinhos, dos bons amigos, das boas piadas e gargalhadas, das boas literaturas, das boas mulheres, mas um único alguém repercutia em minha mente, como uma gota d’água que não cessa, como um martelo em uma construção, simplesmente ela era quem habitava minha mente, desde o primeiro instante em que a vi. Ela.
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