Entre dados e toalhas
Carregava consigo dois pequenos dados e ia miseravelmente deslizando pelas ruas daquele lugar. Olhos esbugalhados, barba por fazer, roupas amarrotas de uma noite de distúrbios, regadas a embriagues crônica. Já entrava pela madrugada e aqueles devaneios só ganhavam maiores proporções, como se os constantes e repetidos ferimentos espalhados pelo corpo já não fossem o suficiente por uma só noite. O suado dinheiro, ganho com muito esforço durante longos e dolorosos dias era facilmente sepultado naquelas longas noites, noites eu digo, pois o hábito estava consolidado. Noites que no início eram apenas diversão e distração, mas que neste tempo assumiam papel de desilusão no caminhar daquele pobre coração. Época longínqua era aquela em que esbanjava saúde e vigor, tempos em que as noites eram companheiras dos bons costumes.
Tudo mudou para esse miserável após o fim daquilo que estava apenas no começo. Em um belo fim de tarde, um singelo passeio com seu querido filho – uma linda criança que aprendia, naquele tempo, suas primeiras palavras. A cena se encaixaria em fotos e cartazes cinematográficos, um roteiro premiado, um cenário sereno, retrato da paz em plenitude. Porém, o destino, ou algo que se aproxime disso em sua crença, fez com que aqueles sorrisos se tornassem lágrimas e incompreensão. Descrever o episódio? Nem em sua totalidade, nem em sua parcialidade. Creio que possamos entender através de meias palavras, não os subestimo.
Pobre miserável, só não é mais miserável, pois, ele, o miserável, sou eu. Sim, falar em terceira pessoa nada mais é do que uma tentativa para me esquivar do que fazia. As noites viradas, horas e horas de sono perdidas, economias de anos gastam em segundos em jogatinas. Virei inimigo do destino, entretanto, queria estar a todo instante próximo dele. Tudo o que fazia era em nome do tal destino. Não importava se ganhava ou se perdia, pois sempre culpava aquele que me tirou a minha melhor parte. Ah, os dados, escolhi os dados por serem os filhos do destino em forma de objetos. Explico: apesar de estarem em minhas mãos, jamais poderia afirmar o que resultaria no instante seguinte. Creio que todos já ouviram que “o nosso destino está em nossas mãos”, certamente ele não estava quando perdi minha última centena de dinheiro ou muito menos quando perdi minha criança.
A questão é que estava fadado a continuar nessa rotina suicida, até o dia em que meu inimigo destino me chamasse para o acerto de contas, seja com quem for. Mas atente colega! O texto não está terminado, encare-o como uma daquelas novelas. Ou melhor, observe o tal tempo verbal. Algo de encantador me aconteceu, sem mais nem menos, num dia qualquer, surgiu aquela linda mulher. Não recordo ao certo o porquê e de onde ela veio, se conversamos ou já nos conhecíamos, quem nos apresentou e onde nos falamos. Quando tento relembrar daquela experiência, mesmo que me esforce, não consigo redesenhar o cenário ou o que nos rodeava, apenas ela em sua perfeição e uma cor: vermelho. Quando fecho os olhos a vejo se aproximando, coberta, somente por um tecido, uma toalha – vermelha – que deixava propositalmente a mostra seus ombros e se apoiava maliciosamente em seu busto. E em meio dessa visão simplesmente a via se aproximar e dizer-me baixinho ao ouvido:
- Esqueça essa vida, esqueça o passado, que assim serei tua.
Não importa o que ficou pra trás, se ainda estas vivo, viva. Se acreditas nessa história nunca saberei, mas digo, que os dados abandonei para me envolver naquela toalha vermelha. Uma paixão sempre será maior que uma desilusão.

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