Salva a dor que vem dali


Pareceria uma madrugada normal naquela quinta à noite, apenas pareceria. O fato muda de figura a partir do instante em que vos digo que alguém estava sentado ao meu lado tirando uma agradável e divertida resenha. Digo que o que ouvirá neste instante foge um pouco da normalidade, mas caro, entenda, que tudo o que será lido aqui poderá conter diversas características, exceto a cinza normalidade. Pois bem, o sujeito que estava ali comigo naquela noite escura e silenciosa era o tal do Camelo. Sim, o Camelo, mas não aquele barbudinho que tocava numa banda chamada Los Hermanos, correto? Não, não. O tal do Camelo, meu amigo, tratava-se de fato de um camelo. Sim, um camelo. Aliás, permita-me uma correção, pois amigo é algo que se constrói ao longo do tempo, com o convívio e aquisição de confiança por ambas as partes, algo que com o Camelo não era compatível. Isto, pois aquele meu colega nascera na madrugada anterior. Creio que tais informações tornam-se cada vez mais improváveis. Recapitulemos então: conversava com um camelo - logo, camelo falante; que nascera na noite anterior. Acrescente aí a maneira como o bichano intelectual veio ao mundo... temo dizer que eu fui seu criador. Calma, calma, creio que a assertiva anterior necessita de mais elementos explicativos, portanto vos digo que Camelo tem origem nos meus traços, nas minhas linhas, nos meus delírios noturnos de tantas e tantas noites intranquilas e solitárias. Necessitava na noite passada de um colega, um companheiro, meio intelectual, nada vaidoso, muito caprichoso e que me tornasse mais criativo, impulsivo, compulsivo por novas histórias. Surpresa a minha que tal desejo se realizara e em tão pouco tempo. Voltando a conversa em questão, Camelo, então falava, segurando um copo de conhaque nacional em sua mão esquerda, que gostaria de novos companheiros para aquela nossa reunião. Ah, um desejo que nos vinha ali era o porquê em não trazer de volta alguns conhecidos nomes da nossa história contemporânea, como por exemplo John e Mozart, teríamos ali um som ao vivo, ao invés do meu radinho de pilha inexpressivo - vale ressaltar que Camelo solicitou veementemente que eu citasse, timidamente, a morte de Ringo em alguns dos meus pequenos textos - bem, até ali não havia funcionado. Música, sim, um tema bastante discutido ali. Escutávamos Ramones enquanto discutíamos entre outras coisas banais a situação política da Indonésia paralelamente à uma fervorosa discussão acerca de qual estado brasileiro possuía as mulheres mais bonitas - eu, defendia um estado arduamente, por outro lado o tal do Camelo era bem mais aberto em seu posicionamento sobre o assunto, bem já que não haviam camelas no Brasil, as mulheres eram sua segunda opção. Camelo, também, perguntava-me frequentemente o motivo de eu não ter ainda escrito sobre ganhar dinheiro, aquisição de palácios, fortunas, prêmios lotéricos e alguns outros prazeres materiais que tantos outros gostariam de ter, que habitavam comumente tantos sonhos. A minha resposta sempre era a mesma:
 - Ora, se tantos querem ter e tantos outros os têm, então por que querer. Muito melhor sonhar em passar a madrugada conversando com um camelo elegante e falante, e assim realizá-lo.
E entre tantas e tantas bobagens e outras nem tanto, e entre tantas horas e minutos desmembrados em prosas e poemas, resolvemos descansar, fechar os olhos e refletir calados, ouvir o som do mundo, daquela madrugada calada, dormir. Pois na verdade o que queria era salvar a dor que vinha dali. Daquela solidão que me infestara na madrugada, na insônia.

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