Enigma da tempestade


Estava eu ali, naquela tarde cinzenta de um inverno tão cinzento quanto. Estava sentado em uma cadeira confortável, sentindo frio, já que a brisa que era soprada pelo ar condicionado se dirigia diretamente para minha nuca; mudei de lugar – ao lado do asiático. Aquele dia representava a última prova do meu doutorado, após uma longa bateria de provas e principalmente inúmeras horas de estudos e de sono perdidas em longas madrugadas. Sentia-me completo, repleto, pronto. Tudo teria valido a pena, os conhecimentos já estavam cristalizados em minha mente, em minha personalidade, como disse – estava pronto.
Eis que surge então a figura do grande professor em meio aos meus pensamentos e devaneios. Entra silenciosamente naquela sala fria e quase vazia – éramos ao final do curso apenas sete. Sem muito alarde, entregou a cada um de nós a tão esperada prova – cerca de dez páginas, extensa, mas nada que me apavorasse. As quatro horas em ponto da tarde, em meio as badaladas de um relógio do século XIX que lá estava posto, ele disse com um tímido sorriso no rosto:

- A sorte está lançada.

Passaram-se então algumas horas, entre três e quatro. Aos poucos meus colegas saiam da sala, alguns com o semblante de cansaço, outros de tensão, outros de incompreensão. Eu, por minha vez estava próximo do fim e até ali sentia que todo o meu conhecimento estava sendo suficiente para realizar aquela provação, a satisfação pulsava forte em minhas veias. Entretanto, ao chegar ao verso da última página, deparei-me com a última questão.
Ali, no cabeçalho da questão, estava escrito – Enigma da tempestade. Estranhei de imediato, pois em todos os livros, em todos os artigos, publicações, teorias e teoremas, nada, nada do que tinha visto tinha esse nome. Pensei então – será que deixei alguma lacuna, algum livro que deixei de devorar? Da minha sensação de satisfação constante, passei ao estranhamento com um leve toque de curiosidade, pois o que seria aquilo de fato?
Enfim, comecei a ler o enunciado da questão, o qual dizia mais ou menos isto:

“Temos uma tarde de inverno em uma pequena cidade do interior do seu querido país. A cidade que você se encontra está totalmente vazia, exceto pela sua presença, seu melhor amigo, uma velha senhora que precisa de atendimento médico urgentemente, e por fim a mulher da sua vida, pela qual você sempre foi apaixonado. Eis então que surge o enigma da tempestade, pois naquele instante as árvores começam a balançar, os pássaros a voar, entre todos aqueles conhecidos sinais que nos dizem não tão sutilmente que uma forte tempestade se aproxima. Ventos são cada vez mais fortes, o céu escurece drasticamente, objetos começam a se mover do chão e das construções, no horizonte é possível identificar a formação de tufões em meio a nuvens carregadas de chuva, também ao longe se veem relâmpagos e o som dos trovões são cada vez mais latentes – o cenário se torna apavorador, e todos vocês – logicamente – estão aterrorizados. Entretanto, existe uma alternativa e cabe a você tomar a decisão mais adequada para esta situação. Pois bem, no local que se encontram existe um automóvel – o caminho para a salvação. Mas se tudo fosse tão fácil não seria um enigma, e o que faz toda esta história ser um enigma é que o tal automóvel só possui dois assentos disponíveis, e como descrito anteriormente vocês são quatro desesperadas pessoas. Então, quem você escolherá para “se salvar” no automóvel? Justifique sua resposta.”

Essa era a tal última questão do meu curso de doutorado? Conversei demorados minutos comigo mesmo, questionando-me o porquê daquele enunciado? O que tudo aquilo tinha a ver com as milhares horas de estudo, e tantos e tantos livros para me preparar, para minha formação que tanto me dediquei?
Deixei pra lá, entreguei a prova ao professor com a tal questão em branco, mas continuei com a sensação de incompreensão, mas, sobretudo aquele toque de curiosidade só aumentava a cada passo que dava em direção a porta da sala. Agarrei-me a maçaneta da porta, e, congelei por um instante, virei-me em direção ao professor e ao olhar em sua face percebi um sorriso escrachado! Simplesmente estranho.
Após esse momento entrei em contato com meus colegas de prova, queria saber se aquela questão tinha algum fundamento técnico, e, principalmente, o que todos tinham posto como resposta. O que me disseram foi tudo aquilo que tinha sentido ao ler a tal questão, ninguém sabia do que aquilo se tratava, alguns fizeram como eu, ou seja, não a responderam, outros elaboraram respostas sem nenhuma convicção, pois para nós tudo aquilo não se passava de uma brincadeira do nobre e tão renomado professor.
Após este contato com meus colegas cheguei a minha casa, já era noite, alta noite. Servi-me algumas doses daquela minha bebida favorita, sempre pensando no tal questionamento sem resposta. Então, quando a dúvida alcançou um estágio insuportável de curiosidade, não me contive, agarrei o telefone e entrei em contato com meu professor, deixei de lado a etiqueta e os bons costumes, queria uma resposta. Surpreendi-me, pois o dito professor atendeu ao telefone de imediato, como? Uma hora daquelas? E logo me proferiu:

- A cerca da última questão da prova, correto?

Nesse momento pensei imediatamente em dois caminhos – ou a questão foi um mal entendido, um engano, um erro de digitação ou qualquer coisa do gênero (o que me faria muito contente); ou estávamos todos em maus lençóis. Prontamente respondi que sim. A partir daí recebi uma aula particular, talvez a última aula do meu doutorado, algo que estava faltando, uma lacuna a ser preenchida. Ele começou desta forma:

- Sei que você deixou em branco a última questão, sei também que você e seus colegas não compreenderam o sentido do enunciado, sei que a soberba estava em todos vocês, mas sei também que todos vocês possuem o potencial e a capacidade de compreender se assim o quiserem. E você o quis, pois foi o primeiro a me telefonar. Entenda, esta é a ultima aula do seu exaustivo curso, sim, este telefonema é sua última avaliação. Vamos ao ponto então. Temos no enigma da tempestade a situação problema de duas vagas apenas para serem ocupadas por quatro pessoas – você próprio, seu melhor amigo, uma idosa em estado temerário e a mulher da sua vida. O que fazer então meu aluno?

- De fato, não sei ainda aonde quer chegar...

- Pois bem, eis minha resposta: Meu filho, coloque no automóvel seu melhor amigo e a tal idosa.

- Mas qual o sentido disso? Ora, a tal senhora logo vai morrer e por qual motivo não me salvar? Ou, não sei... Qual o sentido de tudo isso?

Gargalhadas são dadas ao fundo. E o professor retoma seu raciocínio:

- Tente pensar desta forma: Seja humano. Aquela senhora, não importa sua idade, é uma senhora, uma mulher, merece cuidados, carinho, merece cuidados médicos, merece a vida como todo ser humano, merece ajuda, e, quem mais indicado para ajuda-la que seu melhor amigo, aquele que você viu crescer, que você conhece o caráter, que tantas vezes já te ajudou em diversos momentos de dificuldade? Eles são a resposta para o enigma, eles devem entrar no automóvel e sair desse pandemônio.
Aquela explicação só me provocou mais dúvida e confusão – retruquei:

- Mas e eu? E a mulher da minha vida? Não somos humanos? Não merecemos viver?

- Ora, meu caro! Entenda, está ali você junto com a mulher dos seus sonhos, com ela tudo estará bem, viva esse amor, não importa onde, não importa como, apenas use o tempo que você tem para ser feliz. Use seu coração, seja seu coração, tudo, como já dito, ficará bem!

Eis o fim do enigma, eis a explicação final:

- Por fim, entenda: não importa o tamanho do seu conhecimento teórico, sua capacidade intelectual, as suas mais importantes e melhores decisões – seja aonde for, e para que for – serão aquelas em que você utilizar sua emoção, seu coração. Essa é uma lição que você nunca deve esquecer! Ser humano.
Por fim, silêncio... e uma pequena frase:

- Obrigado, professor.

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