Aquelas cartas
Um fato mudaria... Era um domingo, não, não, era um sábado. Uma manhã de sábado, o clima estava nublado, neblinando, fazia um frio que corria por toda a espinha; arrepios. Estava descalço, procurando - ainda um pouco atordoado - pelos ingredientes do meu chá matinal. Preparava um chá de maracujá, aliás, Camomila - fazia bem para os nervos, acalmava-me daquela tensão acumulada do meu cotidiano. Já com o chá em mãos decidi vislumbrar o que acontecia no mundo pela janela do meu quarto. Grande decisão. Avistei, no outro lado da rua, um senhor com seus quarenta anos nas costas. Segurava uma carta em mãos, e, mesmo com aquele clima adverso andava, andava, como se algo tivesse que fazer. Tal fato passaria em branco se o seu dejá vu não ocorresse na manhã seguinte, nem na próxima e assim consecutivamente, sem nenhuma exceção. Eis o instante que meu instinto de curiosidade falou mais alto. Tinha ali a necessidade de saber para quem o o porquê de tantas correspondências. Era fato, tinha que obter respostas. Paranoico fiquei, por vezes planejei uma maneira de indagar o tal senhor, mas sempre esbarrava nas minhas amarras sociais; vergonha e respeito me obstaculavam ao alcance de meu desejo egoísta. Minhas pretensões já se extinguiam até aquele específico dia... Uma nova manhã de domingo, aliás de sábado, ainda mais fria, ainda mais chuvosa, o adjetivo era misteriosa. Um novo evento acontecera de fato, o tal senhor saía como de costume de sua residência com a tal carta em mãos, entretanto retornou ao recinto deixando sobre a sacada de sua varanda a dita correspondência. Não me dei conta dos riscos nem das consequências, pus-me a correr em direção do meu desejo, da minha curiosidade que me consumia desde o primeiro instante. Fui rápido, simplesmente fui... Peguei a carta em mãos e sem muito pensar avistei o destinatário... Eis uma nova curiosidade, um novo dilema, pois lá estava escrito: - Para um verdadeiro amor. Não sabia o que aquilo significava ao certo, mas não, não poderia parar ali. Já estava no meio do caminho, devia continuar, outras atitudes descabidas deveriam ocorrer, afinal, nesse caso, os fins justificam os meios. Decidi simplesmente esperar o tal senhor e segui-lo sem que me notasse nessa empreitada nem escrúpulos. Caminhei, alguns minutos, como se sua sombra o fosse. Atravessamos parques, ruas, alamedas, até o local de destino... ao chegar pasmo fiquei...
O homem sentou, retirou a carta do envelope, leu em voz alta e ao final da leitura a pôs delicadamente em cima de tantas outras ao lado do túmulo de sua esposa.
Nunca imaginei que aquele fosse o desfecho. Tudo me parecia estranho, ainda mais porque em pouco tempo era eu quem estaria escrevendo tais cartas.

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